O debate em torno da dívida pública brasileira ganhou novos contornos ao longo de 2026. Com a relação dívida/PIB oscilando próximo a 90%, economistas e gestores de política econômica enfrentam o desafio de equilibrar as necessidades de investimento com a sustentabilidade das contas públicas.

Os dados mais recentes divulgados pelo Tesouro Nacional mostram que o estoque da Dívida Pública Federal chegou a R$ 7,1 trilhões em outubro, um crescimento nominal de 12,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Parte desse aumento reflete a incorporação de juros, que continuam sendo o principal componente do crescimento da dívida.

O papel da taxa Selic

A política monetária do Banco Central tem impacto direto sobre o custo de rolagem da dívida. Com a Selic mantida em patamares elevados durante grande parte do ano, o custo médio do estoque da dívida permaneceu pressionado. Segundo cálculos do próprio Tesouro, cada ponto percentual a mais na taxa básica de juros representa um custo adicional de aproximadamente R$ 40 bilhões ao ano para o governo federal.

"A gestão da dívida pública não é apenas uma questão técnica. É uma decisão política que afeta diretamente a capacidade do Estado de investir em saúde, educação e infraestrutura." — Economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

Esse cenário coloca o Brasil em posição delicada quando comparado a outros países emergentes. Argentina e México, por exemplo, têm estruturas de dívida distintas, com maior participação de instrumentos de longo prazo e menor exposição à volatilidade das taxas de curto prazo.

Perfil da dívida e estratégia de alongamento

Uma das principais preocupações da equipe do Tesouro é o perfil de vencimentos da dívida. Em 2026, cerca de 22% do estoque total vence nos próximos doze meses, o que exige um esforço contínuo de refinanciamento. A estratégia adotada tem sido o alongamento gradual do prazo médio, com emissões de títulos de longo prazo — especialmente as Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B), indexadas à inflação.

Essa abordagem tem encontrado demanda consistente por parte de fundos de pensão e seguradoras, que precisam de ativos de longa duração para fazer frente às suas obrigações atuariais. O prazo médio da dívida chegou a 4,2 anos em outubro, o maior nível desde 2019.

Perspectivas para 2025

O cenário para o próximo ano depende, em grande medida, da trajetória da inflação e das decisões do Copom. Se o ciclo de cortes de juros se consolidar, o custo da dívida deve recuar gradualmente. Por outro lado, a incerteza fiscal — especialmente em relação ao cumprimento do arcabouço fiscal aprovado em 2023 — pode manter os prêmios de risco elevados.

Analistas do mercado financeiro projetam que a relação dívida/PIB pode atingir 92% até o final de 2025, caso o governo não consiga entregar o superávit primário prometido. Esse número, embora elevado, ainda estaria dentro de um intervalo considerado administrável por agências de classificação de risco, desde que acompanhado de reformas estruturais.

A questão central, portanto, não é apenas o tamanho da dívida, mas a credibilidade da trajetória fiscal. Investidores e organismos internacionais monitoram de perto os sinais emitidos pelo governo sobre seu comprometimento com a responsabilidade fiscal — e cada declaração ou medida tem o potencial de mover os mercados de forma significativa.